SOBRE O PROJETO

O Banco de Dados e Mapa Interativo Territórios em Disputa: REDD+ e Conflitos no Brasil reúne, a partir de uma perspectiva crítica, informações sobre o mecanismo Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) no Brasil. A plataforma contempla tanto projetos privados vinculados ao mercado voluntário de carbono quanto programas jurisdicionais de REDD+ desenvolvidos por governos estaduais e o federal.

A iniciativa começou a ser construída em 2023, no contexto de atividades de pesquisa e extensão que resultou no relatório Em Nome do Clima: Mapeamento Crítico (2024), elaborado por um grupo de pesquisadoras/es em diálogo com comunidades e organizações da sociedade civil. Ao mesmo tempo, a plataforma é resultado de mais de vinte anos de incidência, monitoramento e pesquisa crítica sobre REDD+, mercados de carbono e políticas climáticas, envolvendo o acompanhamento dos debates internacionais, das políticas implementadas no Brasil e, sobretudo, das experiências e denúncias de povos indígenas e comunidades tradicionais atingidas por essas iniciativas. Durante a investigação, identificou-se que, apesar da rápida expansão das iniciativas de REDD+ no país, o acesso a informações sistematizadas sobre sua distribuição territorial, funcionamento e danos permanece limitado. Em geral, os dados disponíveis encontram-se dispersos, pouco transparentes e marcados por linguagem de difícil acesso.

Ao longo dos últimos anos, organizações da sociedade civil, investigações jornalísticas e estudos acadêmicos vêm denunciando conflitos associados ao REDD+, bem como situações de assédio a povos indígenas, camponeses e comunidades tradicionais. Também têm sido apontados problemas relacionados à ausência de informação adequada e de consentimento livre, prévio, informado e de boa fé, às restrições ao uso tradicional dos territórios, à reprodução de relações desiguais de poder e à geração de conflitos intracomunitários. Além disso, diferentes análises têm questionado os mecanismos de compensação climática por permitirem a continuidade de atividades empresariais intensivas em emissões enquanto produzem uma imagem de compromisso ambiental e climático.

Nesse contexto, a plataforma busca organizar e disponibilizar informações sobre projetos e programas de REDD+ no Brasil, incluindo dados sobre localização, área, status, certificação, comercialização de créditos de carbono, agentes envolvidos — como empresas, certificadoras, governos, consultorias e organizações — e comunidades atingidas. A iniciativa é desenvolvida em parceria entre a Fundação Rosa Luxemburgo Brasil e Paraguai, o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ), e o Coletivo de Pesquisa Desigualdade Ambiental, Economia e Política.

O objetivo do banco de dados é contribuir para a visibilização dos conflitos ambientais associados ao avanço do mercado de carbono e das políticas de compensação climática no país. A partir da sistematização de denúncias públicas, relatos comunitários, documentos institucionais e vivências em distintos territórios, buscamos compreender como essas iniciativas se inserem em processos mais amplos de financeirização da natureza, controle territorial e de conflitos ambientais.

Ao tornar essas informações acessíveis, esperamos fortalecer o debate público, subsidiar a atuação de movimentos sociais, apoiar processos de pesquisa e contribuir para a defesa dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, afirmando o território como espaço de vida, luta e produção de conhecimento.

O banco de dados integra uma pesquisa mais ampla sobre transição energética e financeirização da natureza, desenvolvida a partir de um processo contínuo de formação, pesquisa e articulação entre a Fundação Rosa Luxemburgo e o CPDA/UFRRJ. Esse trabalho foi fortalecido por cursos de extensão realizados, voltados ao intercâmbio de conhecimentos, saberes e experiências políticas sobre capitalismo extrativista, transição energética e conflitos ambientais, com centralidade para as dimensões de gênero, raça e classe.

METODOLOGIA

Projetos voluntários de REDD+

Para o levantamento de projetos voluntários de REDD+ no Brasil, foram considerados aqueles registrados nas duas principais certificadoras que atuam nesse tipo de iniciativa no país. Essas entidades gerem os padrões de certificação, sendo responsáveis por definir e aprovar as regras e metodologias aplicáveis aos programas de crédito de gases de efeito estufa.

Foram incluídos projetos registrados na Verra — responsável pelos padrões Verified Carbon Standard (VCS) e Climate, Community & Biodiversity Standards (CCB) — e na Cercarbono, certificadora que administra padrão próprio de certificação, de mesmo nome. O período inicial de coleta de dados compreendeu os meses de novembro de 2025 a março de 2026.

Como critério metodológico inicial, o mapa contempla apenas projetos de REDD+ cadastrados nas principais certificadoras. No entanto, reconhecemos que o campo das iniciativas de carbono envolve uma série de conflitos e disputas que extrapolam esse universo formalizado, incluindo projetos ainda não implementados ou não registrados em plataformas de certificação, bem como outras modalidades de intervenção territorial associadas aos mercados de carbono.

Nesse sentido, o mapa já inclui uma iniciativa ainda não cadastrada em nenhuma certificadora, identificada pela cor azul, com o objetivo de evidenciar a existência desses projetos em fase de proposição e os conflitos territoriais a eles associados. Em atualizações futuras, pretendemos ampliar o escopo do levantamento para incorporar também projetos de REDD+ não registrados, iniciativas de reflorestamento e restauração ecológica, projetos de carbono azul, além de outras modalidades de projetos de carbono cujos danos socioambientais e conflitos territoriais sejam relevantes para os objetivos do mapa.

A identificação dos projetos registrados na Verra foi realizada a partir do banco de dados público Verra Registry. Foram aplicados filtros relacionados ao país, ao tipo de projeto e às atividades classificadas como REDD+. Para os projetos registrados na Cercarbono, utilizou-se o EcoRegistry, plataforma pública de registro da certificadora, aplicando filtros equivalentes relacionados ao setor de Agricultura, Floresta e outros Usos de Solo (AFOLU) e ao tipo de uso da terra. Isso resultou, em ambos os registros, em listas de projetos de REDD+ localizados no Brasil e vinculados a cada certificadora.

A partir dessas bases, foram coletadas, para cada projeto, as seguintes informações:

  • número de identificação do projeto;
  • nome do projeto;
  • certificação;
  • localização (UF e municípios);
  • status;
  • proponentes;
  • área;
  • comunidades afetadas/atingidas;
  • arquivos geoespaciais e/ou coordenadas;
  • emissão e comercialização de créditos de carbono;
  • os principais compradores de créditos.

Grande parte das informações foi obtida diretamente nos registros das certificadoras. Em alguns casos, especialmente para identificação de municípios, comunidades e atores envolvidos, também foram analisados os Documentos de Descrição do Projeto (Project Description Document – PDD).

Não foram incluídos no banco de dados projetos que foram removidos pelos proponentes, projetos que foram rejeitados pela certificadora, ou projetos que foram desativados antes de obterem registro na certificadora.

Para os projetos atualmente registrados, ou que já tiveram registro ativo, foram levantadas informações adicionais sobre emissão de créditos de carbono, quantidade de créditos comercializados e principais compradores identificados nos registros públicos.

No caso da Verra, as informações foram coletadas na seção Verified Carbon Units (VCUs) do Verra Registry e exportados em formato CSV. Para cada projeto, foram obtidas as informações referentes às aposentadorias de créditos (retirements), ou seja, créditos que foram efetivamente comercializados e retirados de circulação. A quantidade de créditos comercializada foi calculada a partir da soma da coluna Quantity Issued (quantidade emitida), considerando apenas os registros em que a coluna Retirement Date (data de aposentadoria) estava preenchida, uma vez que esse campo indica que os créditos foram efetivamente comercializados.

Em seguida, foram obtidas as informações sobre os compradores dos créditos a partir da coluna “Retirement Beneficiary” (beneficiário da aposentadoria), que identifica a entidade responsável pela aposentadoria dos créditos, isto é, seu comprador. Como os nomes das entidades compradoras frequentemente apareciam múltiplas vezes e com grafias distintas, abreviações ou informações complementares, foi realizado um processo de padronização e consolidação dos registros, que incluiu correções de grafia, remoção de elementos não institucionais e unificação de variações associadas à mesma organização. Também foram excluídos registros inválidos ou relacionados a pessoas físicas.

Após esse tratamento, os créditos foram agregados por entidade compradora, permitindo identificar os dez principais compradores de créditos associados a cada projeto. A opção por esse recorte se justifica por uma questão de escala, uma vez que alguns projetos apresentam um número muito elevado de compradores, o que tornaria uma enumeração exaustiva pouco clara e de difícil leitura. Dessa forma, ao destacar os dez maiores compradores, é possível evidenciar o perfil predominante da demanda por créditos em cada projeto. Nos casos em que o número de compradores era inferior a dez, foram considerados todos os registros disponíveis.

Para os projetos registrados na Cercarbono, as informações sobre créditos emitidos e compradores foram extraídas diretamente das páginas individuais no EcoRegistry, que já apresentam os dados de forma consolidada.

Por fim, para estimar o valor financeiro dos créditos comercializados, foi adotado um preço médio de US$ 7,00 por crédito de carbono, valor compatível com a faixa média observada para créditos REDD+ mercado voluntário de carbono em 2026. Os valores foram convertidos para reais utilizando uma taxa de câmbio de R$ 5,00 por dólar, o que corresponde a uma média de R$ 35,00 por crédito. Essa estimativa foi necessária porque os registros da Verra e da Cercarbono informam a quantidade de créditos comercializados, mas não os valores efetivamente pagos em cada transação. Como o preço dos créditos de carbono pode variar bastante ao longo do tempo e entre diferentes projetos e compradores, os valores apresentados devem ser entendidos como estimativas, utilizadas para indicar a ordem de grandeza dos recursos potencialmente gerados pela comercialização desses créditos.

Dados espaciais e mapa interativo

A localização dos projetos foi obtida prioritariamente a partir de arquivos geoespaciais disponibilizados pelos próprios proponentes, disponíveis nas páginas individuais de cada projeto, incluindo formatos compatíveis com Sistemas de Informação Geográfica (SIG), como KML, KMZ e shapefiles. Quando esses arquivos não estavam disponíveis, foram utilizadas coordenadas extraídas dos documentos dos projetos ou de registros públicos das certificadoras.

Os dados geoespaciais foram tratados e padronizados no QGIS, software livre de SIG utilizado para verificação das geometrias, conferência de sistemas de coordenadas, correção de inconsistências e integração das informações espaciais à base de dados descritiva dos projetos.

Após o processamento, os dados foram organizados para integração ao mapa interativo desenvolvido com a biblioteca Leaflet, ferramenta de código aberto voltada à criação de mapas na web. O sistema permite visualizar os polígonos dos projetos, acessar informações detalhadas e realizar buscas e filtros por critérios como estado, certificação, status do projeto e comercialização de créditos.

Nos casos em que não foi possível obter arquivos espaciais ou coordenadas precisas, os projetos foram representados no mapa por pontos aproximados com base nas informações territoriais disponíveis.

Páginas individuais dos projetos

A plataforma também reúne páginas individuais para cada projeto de REDD+, com informações detalhadas sobre seus proponentes, territórios envolvidos, comercialização de créditos e conflitos associados.

A análise dos conflitos dá continuidade ao trabalho iniciado no relatório Em Nome do Clima: Mapeamento Crítico (2024). As informações foram obtidas por meio de vivências em diferentes territórios, entrevistas, interlocução com comunidades, análise documental, denúncias públicas, investigações jornalísticas e materiais produzidos por organizações da sociedade civil.

Em muitos casos, entretanto, as informações disponíveis ainda se restringem aos documentos divulgados pelos próprios proponentes e certificadoras, o que impõe limites à verificação independente e aprofunda as assimetrias de informação já presentes nesse mercado.

Por essa razão, o nível de detalhamento das páginas varia conforme a disponibilidade de dados e o grau de aprofundamento das pesquisas já realizadas. Inicialmente, foram priorizados projetos com denúncias públicas, acompanhamento de campo ou maior volume de informações disponíveis. Progressivamente, novos projetos serão incorporados e aprofundados ao longo do desenvolvimento da plataforma.

Programas jurisdicionais de REDD+

O levantamento dos programas jurisdicionais de REDD+ foi realizado por meio de pesquisa documental envolvendo legislações estaduais, atas de reuniões, notícias, relatórios institucionais e documentos produzidos por governos e organizações parceiras dos programas.

A pesquisa concentrou-se inicialmente nos estados da Amazônia Legal e em Mato Grosso do Sul, considerando o avanço dessas iniciativas nesses territórios. As informações foram organizadas com base nos instrumentos legais relacionados à criação e implementação dos programas, incluindo dados sobre objetivos, atores envolvidos, financiamento, governança e estágio de desenvolvimento. No mapa, os estados destacados em azul correspondem àqueles que já possuem políticas jurisdicionais de REDD+ implementadas, enquanto os estados destacados em vermelho representam aqueles em que essas políticas ainda se encontram em processo de construção ou discussão.

Também foram considerados conflitos e denúncias relacionados aos programas jurisdicionais, que serão progressivamente incorporados à base de dados.

Assim como ocorre nos projetos privados, observou-se forte assimetria na transparência e disponibilidade de informações entre os diferentes estados. Em alguns casos, não foi possível identificar todos os atores envolvidos na implementação dos programas, nem acessar informações atualizadas sobre seu andamento. O banco de dados busca acompanhar continuamente esses processos, realizando atualizações periódicas conforme novas informações se tornam disponíveis.

Entendemos esta plataforma como um instrumento coletivo e em permanente construção. Por isso, esperamos receber contribuições, correções, relatos e sugestões de comunidades, movimentos sociais, pesquisadoras/es e demais pessoas que utilizem esta base de dados, de modo a ampliar, qualificar e atualizar continuamente as informações aqui reunidas. Caso tenha alguma contribuição ou relato/denúncia que gostaria de compartilhar, envie para o e-mail: territorios.em.disputa@gmail.com

EQUIPE

Elisangela Soldateli Paim

Coordenadora latino-americana do Programa Energia e Clima da Fundação Rosa Luxemburgo (escritório Brasil e Paraguai), pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ) e doutora em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires/Argentina.

Fabrina Pontes Furtado

Professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pesquisadora do Coletivo de Pesquisa Desigualdade Ambiental, Economia e Política e da ROÇA

Marina Lobo

Doutoranda e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ), e graduação em Ciências Econômicas pela PUC-Rio.

Caroline Boletta de O. Aguiar

Doutoranda e mestre em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ), e bacharel em Relações Internacionais pela UFRRJ.  É integrante do Coletivo de Pesquisa Desigualdade Ambiental, Economia e Política e da ROÇA.

Desenvolvimento do Site

Leandro Juárez Liberatori

É pesquisador do Coletivo de Pesquisa Desigualdade Ambiental, Economia e Política. Mestre e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ, atua na área de comunicação e divulgação científica do Coletivo, com ênfase no desenvolvimento, manutenção e atualização de seu site. Seus interesses articulam desigualdade ambiental, conflitos territoriais, economia política e disputas em torno da questão ambiental, contribuindo para a sistematização e difusão pública das pesquisas do grupo.

Valentina Carranza Weihmüller

É graduada em Comunicação Social, especialista em Comunicação e Saúde, mestre e doutora em Educação em Ciências e Saúde pela UFRJ. Atua em projetos internacionais nas áreas de comunicação e engajamento comunitário em saúde, com experiência em pesquisa aplicada, produção audiovisual, divulgação científica e ferramentas digitais.